Proposta de cesta básica para a população da região metropolitana do Rio de Janeiro e sua relação com salário-mínimo vigente.

 

Proposal of a basic food basket for the population of Rio de Janeiro metropolitan area and its relation with current salaries

 

 

Caroline Eustáquio Gonçalves da Silva1

 Renata Simoens Ribeiro Dias da Silva1

 Paula Moraes Curty Pimenta1

 Naira Santana Chaves1

 Luciana M. C. Castro2*

 Eliane de Abreu Soares3

 Emilson Portella3

 

Resumo

A alimentação adequada é um direito fundamental de todo ser humano e está consagrada na Constituição Federal do Brasil. Entretanto, o que se verifica é um quadro de intenso desrespeito aos direitos humanos e de insegurança alimentar. Este trabalho tem como objetivo propor uma cesta básica, para um domicílio com quatro indivíduos, duas crianças e dois adultos, e relacionar seu custo com o poder de compra do salário-mínimo vigente. A lista composta por 31 alimentos foi elaborada de acordo com o valor nutricional e os hábitos regionais. Foram calculadas a necessidade energética, a distribuição de macronutrientes e a ingestão de cálcio e de ferro. Os dados foram coletados em dois supermercados e selecionados os produtos com o menor e o maior preço de cada item da lista, calculando-se então a média de preço de cada supermercado. A distribuição de macronutrientes da cesta proposta foi de 57% de carboidratos, 12% de proteínas – com 57% provenientes de fontes animais e 31% de lipídios – com ácidos graxos saturados constituindo 9% do total energético, sendo monoinsaturados, 8%, e polinsaturados, 10%. O custo da cesta do supermercado 1 foi de R$ 294,30 e a do 2 foi de R$ 318,22, valores que representam 84% e 91% do salário-mínimo vigente. Conclui-se que com o salário-mínimo atual a população provavelmente vem adquirindo produtos de baixa qualidade nutricional, o que tem repercussões importantes sobre sua saúde e nutrição.

 

Abstract

Adequate nourishment is everyone's fundamental right, according to the Brazilian Constitution. However, the situation presents both an important disrespect to human rights and alimentary insecurity. This work aims to propose a basic food basket for a four-people household, two children and two adults, and to relate its cost with the purchase power of the current minimum wage. The list of 31 food types was elaborated in accordance with nutritional values and regional habits, with the calculation of energetic need, distribution of macro-nutrients, and calcium and iron intake. Data were collected in two supermarkets, and products were selected with the lower and highest price of each item in the list, thus calculating the average price in each supermarket. The distribution of macro-nutrients of the proposed basic food basket was 57% of carbohydrates, 12% of proteins – 57% of proteins came from animal sources, and 31% of lipids. Saturated fat acids are9% of the energetic amount, monounsaturated, 8%, and polyunsaturated, 10%. The baskets cost in supermarket 1 was R$ 294.30, and the second, R$ 318.22, values that represent 84% and 91% of current minimum wage, respectively. This result points out that the population, with the current minimum wage, is probably buying products of low nutritional quality which have important impact in their health and nutrition.

Key words: basic food basket; nourishment; minimum wage.

 

Introdução

A alimentação adequada é um direito fundamental de todo ser humano, inerente à sua dignidade e indispensável à realização dos direitos consagrados na Constituição Federal (Brasil, 1988). No plano de concretização destes direitos, encontra-se a segurança alimentar e nutricional, que consiste na efetivação do acesso regular e permanente de todos a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem que outras necessidades essenciais sejam comprometidas, o que pode ser alcançado por meio de “práticas alimentares promotoras de saúde que respeitem a diversidade cultural e que seja ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentável” (Brasil, 2006).

Sabe-se que é dever do poder público adotar políticas e ações necessárias para promover e garantir a segurança alimentar e nutricional da população. Entretanto, a literatura vem descrevendo um quadro de muitas limitações nesse campo (CONSEA, 2004; Valente, 2002). O Brasil é um país de extrema desigualdade de renda, e cerca de 24% de sua população economicamente ativa vive em estado de pobreza, situação que influencia profunda e negativamente na capacidade de acesso a uma alimentação saudável (Radis, 2006).

Na Constituição Federal também consta que o salário-mínimo deve ser capaz de atender às necessidades vitais básicas do trabalhador e de sua família (como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social) e ter ajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo. Em relação ao atendimento das necessidades da alimentação, a lei que instituiu o salário-mínimo prevê que a cesta básica deve representar aproximadamente 48% das despesas desse salário (Radis, 2003).

Por definição, a cesta básica é um termo genérico que designa um conjunto de bens, incluindo gêneros alimentícios e produtos de higiene pessoal e de limpeza, suficientes para suprir as necessidades de uma família pelo período de um mês. Destacam-se três propostas de cestas básicas no país: a do Decreto Lei nº 399, de 1938; a do Programa de Orientação e Proteção Defesa ao Consumidor e Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (PROCON/DIEESE); e a do Estudo Multicêntrico do Ministério da Saúde (Menezes, 2006).

No Brasil, há várias propostas de composição para diferentes cestas básicas, mas nenhuma assumida como referência pelo governo e pela sociedade. As divergências estão focalizadas sobretudo entre opção por uma que seja composta pelos alimentos mais consumidos pela população (independentemente de sua composição nutricional) ou por outra, na qual os alimentos possam assegurar a plena satisfação das recomendações nutricionais (Martins, 2006).

Na cesta que consta do Decreto-Lei n. 399, de 30 de abril de 1938, que regulamentou a chamada Ração Essencial Mínima, há uma lista de alimentos destinados ao trabalhador adulto. Ainda hoje, esta cesta continua sendo a mais freqüentemente adotada como referência para estudos sobre o poder aquisitivo dos assalariados. Ela foi atualizada em alguns itens (por exemplo, a banha foi substituída pelo óleo), mas ainda mantém uma composição de nutrientes insuficiente e não contempla uma série de produtos atualmente consumidos (Barreto, 1998).

A cesta básica PROCON/DIEESE assumiu importância já há alguns anos, dada a divulgação mensal da relação de seu custo comparado com o salário-mínimo, para quase todas as capitais dos estados brasileiros. Além dos produtos alimentícios, é também formada por produtos de higiene e limpeza, constituindo no total 31 componentes presentes no consumo mensal de uma família formada por quatro indivíduos, cuja renda total é de 10,3 salários mínimos. Segundo Barreto (1998), há nessa cesta insuficiência quantitativa de quatro vitaminas (A, C, B2 e B6) e seis minerais (Ca, Mg, Zn, Se, Fe, I). Além disso, a contribuição dos lipídios no total calórico é superior ao aconselhado.

Por fim, deve-se registrar a cesta proposta no Estudo Multicêntrico realizado em 1996-1997, que teve por objetivo estabelecer uma cesta básica que fosse composta por alimentos mais consumidos pela população e nutricionalmente adequada, mas que não foi concluída. Entretanto, refletia apenas a realidade do padrão alimentar urbano do Centro-Sul (Radis, 2003).

Diante dessas lacunas, o presente estudo tem por objetivo propor uma cesta básica, formada somente por produtos alimentícios que atendam algumas recomendações nutricionais, considerando um domicílio constituído por quatro indivíduos, e relacionar seu custo com o poder de compra do salário-mínimo vigente.

 

Metodologia

Para a elaboração da cesta de alimentos, considerou-se uma família constituída por quatro pessoas, sendo uma criança do sexo feminino de dois anos e 11kg; um adolescente do sexo masculino de 10 anos e 30 kg; e dois adultos um do sexo masculino de 35 anos, 1,70m, 67 kg; e um do sexo feminino de 29 anos, 1,65m, 55 kg (ambos praticantes de atividade leve). Esta composição familiar foi realizada de forma arbitrária, considerando-se apenas a média de número de pessoas por domicílio apontada pelo IBGE, e não a faixa etária.

Primeiramente, calculou-se a necessidade energética segundo a Food and Agriculture Oorganization (FAO, 1985) de cada indivíduo em 30 dias, bem como a distribuição de macronutrientes segundo as atuais recomendações americanas (FAO, 2005) para as crianças e da World Health Organization (WHO, 2003) para os adultos. Os cálculos encontram-se expostos nas tabelas 1 e 2. Foi planejada também a ingestão de cálcio e de ferro segundo as recomendações da Food.and Nutrition Board (FNB, 1997 e 2002, respectivamente – tabela 3). Em seguida, somaram-se os valores encontrados para se conhecer, assim, o aporte energético de macro e micronutrientes recomendado para toda a família.

 

Tabela 1: Gasto energético diário e mensal da família

 

 

Gasto energético diário (kcal)

Gasto energético mensal (kcal)

Criança

1.122

33.660

Adolescente

2.070

62.100

Adulto do sexo feminino

1.832

54.960

Adulto do sexo masculino

2.035

61.050

Total

7.059

211.770

 

Tabela 2: Recomendação mensal de macronutrientes segundo FNB (2005) e WHO (2003):

 

 

 

Gasto energético mensal (kcal)

CHO

PTN

LIP

AG saturado

AG Mono-insaturado

AG

Poli-insaturado

 

%

do GET

(g)

%

do

GET

(g)

% do GET

(g)

%

do

GET

(g)

%

do

GET

(g)

%

do

GET

(g)

Criançaa

33660

58

4880,7

5

420,8

37

1383,8

-

-

-

-

-

-

Adolescenteb

62100

58

9004,5

10

1552,5

32

2208

-

-

-

-

-

-

Adulto do sexo femininoc

54960

58

7969,2

14

1923,6

28

1709,9

8

488,5

10

610,7

10

610,7

Adulto do sexo masculinoc

61050

58

8852,3

14

2136,8

28

1899,3

 8

542,7

 10

678,3

10

678,3

Total

211770

-

30706,7

-

6033,7

-

7201

-

1031,2

-

1289

-

1289

 

Legenda:

a : segundo recomendação de FNB (2005) para crianças de 1 a 3 anos.

b: segundo recomendação de FNB (2005)para crianças e adolescentes de 4 a 18 anos.

c: segundo recomendação de WHO (2003) para adultos.

CHO= carboidratos; PTN= proteínas; LIP= lipídeos; AG= ácido graxo; GET= gasto energético total.

 

Tabela 3: Recomendações de cálcio e ferro para cada membro da família segundo FNB (1997) e FNB (2002), respectivamente

 

 

Cálcio (mg)

Ferro (mg)

 

Diário

Mensal

Diário

Mensal

Criança

500

15000

7

210

Adolescente

1300

39000

8

240

Adulto do sexo feminino

1000

30000

8

240

Adulto do sexo masculino

1000

30000

18

540

Total

3800

114000

41

1230

 

 Após os cálculos, propôs-se uma lista de alimentos que foram escolhidos de acordo com o valor nutricional e os hábitos regionais da região metropolitana do Rio de Janeiro. Procurou-se incluir na lista representantes de todos os grupos de alimentos da pirâmide alimentar proposta por Philippi et al. (1999 e 2003). Para o cálculo da quantidade de cada alimento necessária para suprir as necessidades energéticas e de macronutrientes da família, consideraram-se os alimentos na forma crua.

Como limitação deste trabalho, apontamos o fato de não terem sido considerados os fatores de correção e de cocção dos alimentos, o que pode ter levado a resultados não fidedignos.

Utilizaram-se as medidas caseiras da “Tabela para avaliação de consumo alimentar em medidas caseiras”, de Pinheiro et al. (2005), e a composição centesimal de cada alimento proposta pela “Tabela de composição de alimentos: suporte para decisão nutricional”, de Philippi (2002), ou pela “Tabela Brasileira de Composição de Alimentos” (TACO, 2006).

No caso do espinafre, como este é vendido por unidade e não havia essa medida na tabela de medidas caseiras, calculou-se a gramatura da unidade a partir da média do peso encontrado de uma unidade em cada supermercado visitado.

Estipulou-se que o consumo de sal extrínseco deveria ser de aproximadamente 5000mg, já que não se calculou a quantidade de sódio intrínseco de cada alimento.

A fim de determinar o custo da cesta proposta, escolheram-se dois supermercados: um no bairro de Curicica, município do Rio de Janeiro, visitado no dia 6 de dezembro de 2006, e outro na Rodovia Presidente Dutra Km 4, município de São João de Meriti, visitado no dia 16 de dezembro de 2006. O preço final de cada alimento foi calculado utilizando-se a média do maior e menor valor para cada produto.

Após o cálculo do custo total da cesta, verificou-se o percentual do salário-mínimo necessário para sua aquisição, tomando-se como base o salário-mínimo oficial do mês de dezembro de 2006, de R$350,00. Por fim, estimou-se o salário-mínimo “ideal” para o suprimento alimentar de toda a família, considerando-se o Decreto-Lei n. 399, de 30 de abril de 1938, que determina que o custo com a alimentação deve ser de 48% do salário-mínimo.

 

Resultados

Com base na tabela 2, propôs-se uma cesta básica para a família cujos itens estão relatados na tabela 4. Nesta tabela estão também apresentadas as quantidades de cada nutriente fornecido, bem como o percentual de adequação em relação à distribuição de nutrientes apresentados na tabela 2 e 3.

 

Tabela 4: Análise quantitativa da cesta básica

 

Alimentos

Quantidade

Calorias

Carboidrato

Proteína (g)

Lipídio

AG

AG

AG

Cálcio

Ferro

estimada

 (kcal)

 (g)

vegetal

animal

 (g)

saturado

 Mono-insaturado

Poli-

insaturado

(mg)

(mg)

mensal

 

 

 

 

 

(g)

(g)

(g)

 

 

(g ou ml)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Açúcar refinado

6000

23976

5994,0

0,0

0,0

0,0

0,0

0,0

0,0

60,00

3,60

Alho

500

812

165,5

31,9

 

2,5

0,5

0,1

1,3

905,00

8,50

Arroz Branco Cru

5800

20561

4640,0

414,1

 

38,3

10,4

12,2

10,4

1624,00

250,56

Azeite de oliva

550

4950

0

0

0

550

74,3

405,4

46,2

0,99

2,19

Café

250

223

33,5

12,5

 

4,3

ND

ND

ND

210,00

8,25

Farinha de Mandioca

2000

7102

1728,0

34,0

 

6,0

ND

ND

ND

1220,00

62,00

Farinha de Trigo

1000

3601

777,0

94,0

 

13,0

2,0

1,0

6,0

1400,00

20,00

Feijão cru

4000

13793

2452,0

900,0

 

42,8

6,0

3,2

23,6

3320,00

268,00

Goiabada

800

2074

512,8

4,0

 

0,8

ND

ND

ND

144,00

7,20

Leite Integral Longa Vida

61000

37673,6

2848,7

 

2013,0

2025,2

1305,4

524,6

85,4

72590,00

30,50

Macarrão cru

1000

3616

752,0

125,0

 

12,0

ND

ND

ND

270,00

13,00

Óleo de soja

3600

32400

0,0

0,0

0,0

3600,0

518,4

838,8

2084,4

1,44

0,72

Ovo

1000

1449

12,3

 

125,0

100,0

31,0

38,1

13,6

490,00

14,40

Pão Francês

5250

15112

2982

494,6

 

133,9

ND

ND

ND

5827,50

161,70

Queijo Minas

1000

2430

ND

 

180,0

190,0

ND

ND

ND

6850,00

4,00

Sal

1000

0,0

0,0

0,0

0,0

0,0

0,0

0,0

0,0

240,00

1,00

Carnes:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Frango (peito) a

1000

1470

0,0

 

210,0

70,0

22,0

32,0

9,0

80,00

4,00

Peixe (sardinha) a

1000

1110

0,0

 

210,0

30,0

17,0

5,0

2,0

1670,00

13,00

Vermelha de 2ª (acém) a

3500

4550

0

 

665,0

210,0

94,5

84,0

3,5

105,00

63,00

Vísceras (Fígado)

500

1051

39,3

 

133,4

40,0

13,4

8,2

8,6

54,95

31,4

Frutas:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Banana

4800

7350

1123,1

49,9

 

23,0

9,1

1,9

4,3

288,00

14,88

Laranja

10800

5621

1274,4

101,5

 

13

2,2

2,2

3,2

4320,00

10,80

Limão a

6700

2880

737,0

67,0

 

0

ND

ND

ND

3417,00

ND

Maçã Vermelha

10800

7042

1652,4

20,5

 

38,9

6,5

2,2

11,9

756,00

19,44

Vegetal A:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alface lisa

2000

440

70,2

26,2

 

6,0

0,8

0,2

3,4

1360,00

28,00

Cebola

2100

855

181,4

24,6

 

3,4

0,6

0,4

1,3

420,00

4,62

Espinafre

2000

573

70,2

57,4

 

7,0

1,2

0,2

3,0

1980,00

54,20

Tomate

5000

1249

232,5

42,5

 

16,5

2,5

2,5

7,0

250,00

22,50

Vegetal B:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Beterraba

2000

926

191,4

32,4

 

3,4

0,6

0,6

1,2

320,00

16,00

Cenoura

9900

4581

999,9

103,0

 

18,8

3,0

1,0

7,9

2673,00

49,50

Vegetal C:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Batata

1000

812

180

20,8

 

1

0,3

0

0,4

70,00

7,60

Mandioca

1000

1236

269

31,1

 

3,9

1

1

0,7

910,00

36,00

TOTAL

 

211517

29918,6

2687,0

3536,4

7203,7

2122,7

1964,8

2338,3

113826,88

1230,56

 

 

 

 

6223,4

 

 

 

 

 

 

ADEQUAÇÃO (%)

-

100

97

103

100

-

-

-

100

100

 

Legenda:

AG = ácido graxo

a Fonte da composição centesimal: TACO (2006), o restante dos alimentos tem como fonte a tabela de Philippi (2002).

 

A distribuição energética desta cesta foi de 57% de carboidratos, 12% de proteínas e 31% de lipídios, o que está de acordo com as recomendações da Food.and Nutrition Board (FNB, 2002). Os ácidos graxos saturados constituem 9% do total energético fornecido pela cesta; já os monoinsaturados são 8%, e os polinsaturados, 10%, o que está de acordo com as recomendações da World Health Organization (WHO, 2003). Em relação às proteínas, 57% foram provenientes de fontes animais – ou seja, nesta cesta predominam fontes de proteína de alto valor biológico, que fornecem, assim, todos os aminoácidos essenciais em quantidades satisfatórias.

A quantidade de gordura saturada, mono e polinsaturada fornecida pela cesta ultrapassa os valores propostos na tabela 2, mas isso se deve ao fato de não se ter conhecimento das recomendações desses nutrientes para as crianças. Logo, o cálculo da tabela 2 só envolve os adultos.

A quantidade de cálcio e de ferro fornecida pela cesta atingiu as recomendações da Food and Nutrition Board (FNB, 1997 e 2002, respectivamente).

Esta cesta fornece 450g de frutas, legumes e verduras per capita diários, o que está de acordo com as recomendações do Ministério da Saúde (Brasil, 2005), que sugere uma ingestão per capita de no mínimo 400g/dia.

O custo da cesta, com base na média dos preços do supermercado do bairro de Curicica, é de R$ 294,30; já a cesta com base nos dados colhidos no supermercado localizado no município de São João de Meriti é de R$ 318,22: uma diferença de 8%.

Tomando como base o salário-mínimo oficial de R$ 350,00, o custo da cesta calculada a partir da média dos preços do supermercado do bairro de Curicica representaria 84% desse valor, e o do supermercado do município de São João de Meriti, 91%. Assim, o salário mínimo real deveria ser de R$ 613,13 e R$ 662,96, respectivamente, considerando que o decreto lei determina que o custo com a alimentação deveria representar 48% do seu total.

 

Discussão

Observa-se, atualmente, declínio no consumo de alimentos básicos e tradicionais, como arroz e feijão, e aumento na aquisição de produtos industrializados e consumo insuficiente de hortaliças e frutas, concomitante com o aumento do teor de gordura e açúcar na dieta brasileira (Levy-Costa et al., 2005).

Observou-se que o salário-mínimo oficial de R$ 350,00 não é suficiente para oferecer a uma família de quatro pessoas renda suficiente para a alimentação, habitação, vestuário, higiene e transporte, uma vez que em torno de 95% dele representaria o gasto com a alimentação, considerando-se os resultados deste estudo.

A lei que regulamenta a Segurança Alimentar e Nutricional estabelece que todos têm o direito ao acesso regular e permanente de alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem prejudicar o acesso às outras necessidades essenciais do ser humano, respeitando-se a diversidade cultural, e que tenham como base práticas alimentares promotoras de saúde de caráter social, econômico e ambientalmente sustentável (CONSEA, 2004). No Brasil, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2005), observa-se que o rendimento médio mensal de todos os trabalhadores da população ocupada para o sexo masculino equivale a R$ 833,80, e para o sexo feminino, a R$ 644, 80, sofrendo modificações de acordo com a posição ocupada. Os 40% mais pobres da população ocupada no Brasil em 2004 contam com rendimento médio mensal correspondente a R$ 200,71, o que, no caso de uma família composta por apenas um membro ocupado, é insuficiente para o acesso a todas as necessidades essenciais. Assim, a partir desses dados, nota-se a dificuldade da família brasileira de baixa renda para ter uma alimentação adequada nutricionalmente, o que indica tendências desfavoráveis no seu padrão alimentar.

Deve-se registrar que obesidade, diabetes mellitus, doenças cardiovasculares, certos tipos de câncer e outras enfermidades crônicas são riscos decorrentes da transição alimentar em curso nas últimas três décadas – conseqüente de transformações ocorridas no país, como a urbanização. Contribuem para as modificações na composição das refeições domiciliares, fenômeno que afeta inclusive as famílias de poder aquisitivo mais favorável (Barreto, 1998; Oliveira & Thébaud-Mony, 1997).

A situação alimentar não pode ser analisada apenas através da análise da taxa de produção de alimentos ou outros indicadores econômicos específicos. A observação dos problemas estruturais do sistema econômico, das relações sociais e das políticas adotadas permite verificar as possíveis influências diretas sobre a alimentação. As estratégias apropriadas para a solução do problema alimentar deve considerar todos os determinantes do consumo alimentar, verificando-se a ação dos agentes sociais participantes da cadeia alimentar: produtores, distribuidores e consumidores (Oliveira & Thébaud-Mony, 1997).

 

Conclusão

A cesta básica aqui proposta é composta por alimentos com valor nutricional para suprir as necessidades nutricionais de uma família de quatro indivíduos, considerando também os hábitos alimentares da região metropolitana do Rio de Janeiro. Seu custo ultrapassa o valor de 48% do salário-mínimo em vigor.

A partir desse quadro, parece razoável afirmar que a população vem adquirindo produtos de baixa qualidade nutricional, com conseqüências deletérias para sua saúde e nutrição.

Esse é um cenário que acarreta ao Sistema Único de Saúde (SUS) elevação dos gastos com o tratamento dos doentes, devido à obesidade, doenças coronarianas, hipertensão arterial, diabetes mellitus, doenças associadas à alimentação inadequada.

 

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1Alunas do Curso de Graduação em Nutrição do Instituto de Nutrição / Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

2*Professora no Departamento de Nutrição Social / Instituto de Nutrição/Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

3Professores no Departamento de Nutrição Básica e Experimental / Instituto de Nutrição / Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

 

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